Que nos habita

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O espaço em volta faz a nossa cabeça, mexe com nossa sensibilidade. E nem sempre a gente percebe.

Nasci e cresci em Santos. Mas morei em São Paulo na década de oitenta. Lembro bem da primeira vez que subi num prédio mais alto e pude ver o “horizonte”. Era na Avenida Consolação, no trecho mais alto. O deck do pequeno apartamento de cobertura dava uma visão em 360 graus. E me surpreendi com um mar de construções. Cimento, asfalto, avenidas, prédios e casas até onde a vista alcançava. Apenas a Serra da Cantareira se via ao norte, mas muito, muito distante. Tive náuseas, enjoei. Eu, que navegando me sinto bem, tremi naquele mar de urbanidade. Dava medo de afogar.

Um amigo paulistano sugeriu agruparmos imaginariamente os locais da cidade onde realmente convivemos. Lugares onde de fato temos alguma relação: locais de trabalho, de estudo, onde gostamos de ir e estar. Juntando tudo, o resultado é uma cidade pequena. Bem menor do que a cidade à nossa volta. É nossa cidade real. E o que existe além dela não nos pertence. É apenas obstáculo. Soou triste, mas lúcido. Conheci muitos paulistanos que pouco saem de seus bairros nos momentos de lazer. Para a maioria, São Paulo não é uma cidade, são várias, centenas, agrupadas e separadas pelo mar de urbanidade. Uma cidade-obstáculo.

Em São José dos Campos, para onde me transferi em 1995, não havia mar, é claro. Nem tanta urbanidade. No vale do Rio Paraíba, cortada pela Via Dutra, a cidade é espalhada, cercada de espaços abertos, alguns ainda em vegetação quase nativa. No horizonte vê-se a beleza da Serra da Mantiqueira. E uma peculiaridade que muito surpreende os turistas. Em pleno centro da cidade, uma gigantesca área verde, o “banhado”. Visto à noite, a escuridão da imensa área sugere estarmos à beira mar. As poucas luzes ao fundo, no outro extremo, lembram navios. E quem cresceu a beira mar reconhece fácil a semelhança.

Lá muitos córregos e riachos cruzam a cidade, impondo ruas e avenidas em acentuados declives. Um constante sobe e desce. Desafio para os carros de motor mais fraco e exaustão para os ciclistas e pedestres. Nada de mais para quem vive em muitas cidades de Minas, onde a vida é uma constante escalada.

Procuro sempre reparar no que o espaço de uma cidade propõe, seu jeito físico de ser. E como isso condiciona a maneira de pensar e agir de seus habitantes.

Como aqui Santos onde o convívio com o mar não é impune. Afeta nosso pensamento, nossa sensibilidade, nosso jeito de ser.  É uma presença impactante, indomável, obscura, que não nos pertence, mas é parte de nós. É como uma linha, uma fronteira que nos dá a sensação constante de que o mundo é limitado, que acaba ali.

Não acaba.

Mesmo havendo uma parte que não pode passar. A parte controlada, conhecida, domada. A parte que o mar, solenemente, ignora.

Pois o mar é assim: pode, a qualquer momento, levar o que temos, sem pedir licença. Ou trazer algo novo, surpreendente e maravilhoso.

 Fora e dentro de nós.

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